O achatamento de perspectiva europeu
Ao fazer-se uma contraposição dos textos de Arno Mayer (A força da tradição, a permanência do antigo regime- 1848-1914) e G. Barraclough (Do equilíbrio europeu à era da política mundial), observa-se que ,por caminhos diferentes, ambos tentam explicar o eclipse do sistema europeu de poder. Mayer busca uma linha mais sociológica, explicando como um pensamento restritamente acien régime impediu que os países europeus se desligassem da via européia de status quo, ignorando a transição política pela qual passava o mundo e a própria transição sócio-cultural que se passava na Europa. Já Barraclough apresenta uma argumentação de base empírica, focando em eventos das relações internacionais para relacionar o ocaso do equilíbrio europeu à ascensão da era da política mundial.
Dentre os pressupostos de Mayer, está o de que a Guerra de 1914 é a “remobilização contemporânea dos anciens régimes da Europa”. “A velha ordem entrincheirada” apegada aos seus valores materiais e à sua influência política produz uma guerra em prol de um equilíbrio, como diz Barraclough, essencialmente anacrônico. A ordem burguesa, que para Mayer não existia, estava demasiadamente envolvida num romantismo aristocrático que freava o desenvolvimento de um pensar burguês dinâmico.
Finalmente, Barraclough coaduna com Mayer quando observa que, mesmo na era do neocolonialismo na África e na Ásia, a Europa não deixara de pensar o plano global em função do equilíbrio estritamente europeu. Ao ir de encontro aos interesses de potências continentais como EUA e Rússia no extremo oriente, a Europa e seu sistema político gradativamente sucumbiram a um sistema de política mundial, ou seja, a Ásia não seria manipulada ao bel-prazer dos europeus – como acontecera na África -, os choques de interesse no oriente prestaram um papel de divisor de águas, o primeiro vislumbre de uma era global. E os europeus, nesse contexto, deixaram claro que não conseguiam colocar no devido patamar de importância os palcos europeu e mundial. A “necessidade” (ou não) de se manter atuante nas diversas esferas de ação, em outras palavras, a ausência de foco dos países europeus é, para Barraclough, a principal razão pela qual o mundo conheceu outras potências a partir de então.
